Estávamos terminando o primeiro ano de escola, o maior bicho-papão era a cadeira de Química, dominada há vários anos pelo professor Cristiano. Suas aulas eram intermináveis discursos que proferia andando de um lado para outro sobre o praticável colocado à frente da lousa. Fazia isto como se fosse algo mecânico, que houvesse treinado durante anos e anos, parecia pouco se importar se havia alunos na sala ou não.
Química, naquela época era um pouco diferente do que se estuda hoje. A aula começava com uma integral tripla, para explicar o volume do recipiente que continha o gás que, obviamente, era apresentado por sua fórmula química... o restante seguia na mesma linha de dificuldade. Não havia livro texto básico ou apostila só o exercício laudatório do mestre.
Suas provas tinham algumas especificidades. Ora eram problemas com inúmeras variáveis e ele até fornecia mais dados do que os necessários para a solução do problema - só para complicar um pouquinho mais a vida dos alunos. E, invariavelmente, a solução desses problemas passava por uma equação diferencial. Não bastava saber química, precisava também saber cálculo integral. Ora eram perguntas, às vezes longas, às vezes curtas, cuja solução demandava a conjugação de conhecimentos básicos de química e da vida prática.
Algumas de suas perguntas ficaram famosas:
- Porque as caixas de fósforos contém em média 45 palitos?
- Porque as garrafas de cerveja contém 600ml?
- Porque os primeiros aparelhos telefônicos eram pretos?
E suas perguntas precisavam de respostas que levassem em conta conceitos de química, como velocidade de ganho de calor da cerveja na garrafa X tempo de consumo, custo do baquelite X sua resistência mecânica, etc.
Naquele final de ano sua prova resumiu-se a uma pergunta:
- O inferno é EXOTÉRMICO ou ENDOTÉRMICO? Justifique.
Um aluno, entretanto, escreveu o seguinte:
"Primeiramente, postulemos que o inferno exista e que esse é o lugar para onde vão algumas almas (Dante Alighieri, in Divina Comédia). Agora postulemos que as almas existem, assim elas devem ter alguma massa (m) e ocupam algum volume (v). Então um conjunto de almas tem uma massa correspondente ao somatório de suas unidades (M = m1 + m2 + m3 +.... mi), mas ocupa um espaço não necessariamente correspondente ao somatório de seus volumes (V < v1 + v2 + v3 +.... vi). Temos então que tentar entender a que taxa as almas estão se movendo para fora e a que taxa elas estão se movendo para dentro do inferno (fluxo diferencial ou gradiente).
De acordo com o que entendemos que seja o inferno, podemos assumir seguramente que, uma vez que certa alma (Ai) entra no inferno, ela nunca mais sai de lá. Logo, não há almas saindo - entrou, ficou (é o princípio básico de todos os infernos)!
Como ALMA é um conceito vinculado a religião, vamos procurar entender como isto acontece do ponto de vista teológico. Vamos dar uma olhada nas diferentes religiões que existem no mundo e no que pregam algumas delas.
Algumas pregam que se você não pertencer a ela, você vai para o inferno... (em religião não existe democracia, só exclusividade)
- Se você não cumprir seus mandamentos,
- não pagar o seu dízimo (já dizia o Bispo Edyr Macedo)
- ou se desagradar ao seu Deus,
você vai para o inferno (dizem que lá é pior do que banheiro de república no carnaval). Como a maioria das religiões segue estes princípios e as pessoas não possuem duas religiões, podemos projetar que TODAS as almas vão para o inferno, por uma ou outra razão (se correr o bicho pega, se ficar, o bicho come).
Logicamente que, com as taxas de natalidade e mortalidade crescentes em termos absolutos, podemos esperar um crescimento exponencial das almas no inferno (dizem que o último tecnocrata que lá esteve tentou um sistema de rodízio).
Agora vamos olhar a taxa de mudança de volume no inferno. A Lei de Boyle (P1.V1/T2 = P2.V2/T1) diz que para a temperatura e a pressão no inferno serem constantes, a relação entre a massa das almas e o volume do inferno deve ser constante (PV = nRT). Existem, então, duas hipóteses:
1) Se o inferno se expandir a uma taxa menor do que a taxa com que as almas entram, então a temperatura e a pressão no inferno vão aumentar até ele explodir ou conseguir aliviar o calor excedente para o exterior. Neste caso, podemos considerar que o inferno é EXOTÉRMICO, isto é, precisa gerar calor para o exterior para se manter.
2) Se o inferno estiver se expandindo a uma taxa maior do que a entrada de almas, então a temperatura e a pressão irão baixar até que o inferno se congele ou consiga absorver calor do exterior. Neste caso, podemos considerar que o inferno é ENDOTÉRMICO, isto é, precisa receber calor do exterior para se manter.
Se nós lembrarmos que a menina mais gostosa da Escola Normal me disse logo que entrei para a faculdade: 'Só irei p'rá cama com você no dia que o inferno congelar' e, levando-se em conta que, 40 anos depois, AINDA NÃO obtive sucesso na tentativa de ter relações sexuais com ela, então a segunda hipótese é FALSA.
Portanto, o inferno é EXOTÉRMICO."
CQD
Assim sendo, para evitarmos que esta história tivesse um final imprevisível, com a explosão do inferno ou mesmo o seu congelamento, hipóteses estas que demandariam o fim da vida na terra, o que impediria que comêssemos as demais garotas da Escola Normal é que criamos a Pulgatório. Ou as levamos para a Pulgatório e as comemos lá, ou simplesmente ficamos na Pulgatório, bebendo, contando mentiras, mas a salvo dos problemas do inferno.