quarta-feira, 26 de agosto de 2009

REPUBLICA PULGATÓRIO



Preliminares


Até 1.967, o sistema de vestibular às escolas superiores somente permitia o ingresso dos estudantes que, além de se classificarem dentro do número de vagas previstas, também obtivessem nota mínima de aprovação em todas as provas - geralmente em torno de 50%. Isto gerava uma situação perversa para o país, uma vez que havia uma grande carência de mão-de-obra qualificada de um lado e ociosidade de vagas disponíveis de outro. Até esta época, era comum a Escola de Minas patrocinar vestibular para cem vagas e aprovar apenas vinte candidatos. Basta olhar para os quadros de formandos daquela geração e de gerações anteriores: era normal uma turma de formandos de apenas uma dúzia de engenheiros. Em alguns anos, a quantidade de formandos era até mesmo quase igual à de homenageados – paraninfos, diretor, professor, funcionário, etc.

A lei foi mudada – passou a ser obrigatório o esgotamento das vagas. O reflexo na Escola de Minas foi imediato: passaram a se formar turmas de vinte engenheiros e a ingressar na escola levas de mais de cem alunos. Isto, para uma sociedade que há dezena de anos já se acostumara ao padrão anterior causou um sério problema: onde alojar este excedente ? De início, houve um processo de cada um tentar buscar a sua solução – muitas casas de família passaram a ser alugadas para os estudantes que as transformavam em repúblicas, mas já havia a previsão de que no ano seguinte a tendência era a de que o processo deveria tornar-se mais crítico ainda, pelo efeito bola-de-neve.

Começou então um grande movimento na escola por novas moradias para estudantes, liderado pelo então tesoureiro do Diretório Acadêmico, Cesar do Cuzão – que veio a abandonar a escola, por medo do Decreto Lei 477 e exilou-se no Chile[1]. O objetivo deste movimento era político, isto é, mostrar aos estudantes que o DA existia e, de outro, era o de alertar as autoridades para o drama dos EST – “estudantes sem teto”. Para isto era necessário dar visibilidade ao movimento. Não bastava sensibilizar a opinião pública ouropretana – esta já conhecia o problema – o importante era atingir o noticiário nacional a partir de uma cidade, como Ouro Preto, que estava à margem da vida política do país. A solução encontrada foi a de montar um acampamento na Praça Tiradentes. Nos mesmo moldes que são hoje os acampamentos dos sem-terra.

A reação foi rápida: a Escola de Minas, dona de uma das maiores verbas do Ministério da Educação, comprou diversas casas – muitas delas na rua do Paraná, onde estão hoje as Repúblicas do Pulgatório, Aquarius, Nau Sem Rumo e Ninho do Amor – para transformá-las em moradias para estudantes. A Ninho do Amor, assim com a Nau Sem Rumo, já existiam como repúblicas em outros locais, porém ocupando imóveis em condições precárias, por isto foram premiadas pela Escola de Minas com os imóveis que ocupam até hoje. Na Pulgatório o processo foi diferente.





A INVASÃO


Diversas repúblicas em situações precárias reivindicaram o imóvel em que hoje se encontra a Pulgatório, mas a Escola de Minas mostrou-se muito vacilante no atendimento destes pedidos. Diante desta hesitação, a casa, que já se encontrava em condições de habitabilidade, foi invadida por três repúblicas que a desejavam: a Pulgatório, a Tropicália e a Buraco Quente. A reação da diretoria da Escola de Minas foi rápida: convocou uma comissão de invasores para se explicarem. O objetivo era óbvio: a escola desejava a desocupação do imóvel e, para isto estava disposta a pressionar os estudantes que se opunham à sua vontade. Estávamos em três e a reunião foi com o próprio Pinheirinho[2]. Foi perguntado ao primeiro deles sobre qual a sua situação na escola. Era o Malão e ele estava repetindo algumas cadeiras do primeiro ano. A mesma pergunta foi feita ao segundo. Era o Babalu e ele estava cursando o segundo ano. O terceiro respondeu que era jornalista e estava apenas cobrindo os fatos. Certamente, receoso da repercussão na mídia, Pinheirinho arrefeceu seu ímpeto. Mas o terceiro não era nenhum jornalista - era o Caiafa. Mas valeu a intimidação e a escola “esqueceu” de pedir a desocupação do imóvel [3].


DA CONSTITUIÇÃO ESCRITA


De repente estávamos em quatorze pessoas com uma casa para habitar. E teríamos que nos suportar mutuamente. Inaugurar uma república, com quatorze moradores que nem sequer se conheciam muito bem é muito diferente de receber um ou dois novos moradores a cada ano: a pessoa que chega tem que se adaptar aos hábitos daquelas que lá já se encontram – afinal, ela se candidatou a isto [4]. No caso da Pulgatório, naquele momento, ninguém chegou antes, todos chegaram juntos; ninguém tinha que se adaptar a ninguém, todos tinham que se aceitar mutuamente. Já que pretendíamos transformar a casa em uma república, nada mais adequado do que criar uma constituição. Afinal, se todas as grandes repúblicas do mundo têm a sua, porque não teríamos a nossa ? E, em 25 de março de 1.969, promulgávamos a constituição da Magnânima República Parlamentarista do Pulgatório. Se a Pulgatório não viesse a ser uma grande república, pelo menos no tamanho do nome ela seria imbatível [5].

A constituição visava basicamente estabelecer uma regra de convivência para os ocupantes da casa, isto é, estabelecer o que era certo ou errado no entendimento da maioria. Alguns gostariam de ficar a noite inteira jogando truco, outros gostariam de dormir, outros gostariam de usar a sala para dar uma festa particular (não havia ainda a boite), e outros gostariam (ou precisariam) estudar – quem estava certo e quem estava errado ? Por isto, em um dos seus artigos dizia que “é proibido fazer uso da empregada para fins particulares, durante o seu horário de serviço". É óbvio que o objetivo desta cláusula era o de impedir que algum republicano pedisse para a comadre fazer o seu almoço ou mesmo lavar as suas roupas nas horas em que ela deveria dedicar-se à limpeza da casa. Houve republicano que preferiu não tomar conhecimento desta regra e fez uso da empregada. Pegou uma respeitável gonorréia. Poderia dizer-se que a constituição era sábia - escrevia certo por linhas tortas.


DA CONSTITUIÇÃO NÃO ESCRITA


Por razões de natureza óbvia, algumas regras não foram registradas na constituição da república porque nós não acreditávamos nelas ou porque não seria adequado fazer este registro em um texto que se pretendia ter como um quase documento. Uma destas regras era referente aos hábitos sexuais das pessoas. Acreditava-se que a família de um republicano era uma entidade quase sagrada, por isto era proibido comer a namorada, a irmã e a mãe do outro republicano. No primeiro ano de vida da república, descobrimos que a namorada não faz parte da família. No segundo ano de vida descobrimos que a irmã do outro republicano só faz parte da família dele até a gente comê-la. E, nas últimas décadas, após alguns republicanos terem passado a barreira dos trinta e dos quarenta anos, descobriu-se que mãe também se come. Afinal, algum dia alguém também comeu a nossa !

Provavelmente, alguns republicanos, já próximos dos sessenta anos, estarão se questionando se a regra previa ou não a hipótese de se comer a avó do outro republicano. Não, absolutamente nada foi combinado a respeito disto – as vovozinhas sempre foram consideradas fora da regra. Porque, não se sabe. Assim como as sobrinhas, também nunca houve qualquer restrição ao seu uso. Por isto o Zé Fortuna sempre trouxe suas sobrinhas para as festas da república. Considerando-se que o Zé formou-se há trinta anos e que durante todos estes anos ele tem vindo regularmente à república pelo menos três vezes a cada ano são quase noventa sobrinhas que ele apresentou na república. Família grande !

Quanto às primas, todo mundo sabe que Deus as fez para serem comidas. Quem ainda não comeu uma prima, que atire a primeira pedra. Prima é um parente que a gente até inventa quando não tem para poder comer. Por isto, entendemos que não haveria qualquer necessidade de se criar uma regra interna referente a prima, apenas para reforçar um hábito social.


DA INICIAÇÃO DA REPÚBLICA


Toda república precisa ter uma personalidade, isto é, uma característica que a torna diferente das demais e por isto a torna querida e desejada, justamente por aqueles que se identificam com esta característica. Assim é que, quando o estudante se identificava com o futebol, sua primeira opção era a PifPaf, quando a identificação era com a zorra, a opção era a Pureza. A Pulgatório não levava a qualquer referência específica – a república não tinha uma personalidade definida. A primeira tentativa de se dar uma personalidade à república aconteceu em 21 de abril de 1.969 [6].

Naquela época as repúblicas mais tradicionais já tinham seus nomes divulgados em diversos locais do Brasil: eram pessoas que já haviam estado em Ouro Preto, haviam gostado da cidade e também da hospitalidade da república em que estiveram. Esta hospitalidade era divulgada em seus meios sociais e não poucas vezes acabava fazendo com que aquelas pessoas retornassem a Ouro Preto com parentes, amigos e até mesmo excursões, para se hospedarem em uma república que mal podia acolher aos seus moradores. Se, em algumas repúblicas mais antigas sobravam interessados, na Pulgatório sobrava espaço. Naquele 21 de abril a Necrotério estava para receber uma turma de garotas de Muriaé. Não havia espaço suficiente para alojá-las, o jeito foi verificar se algumas poderiam ficar na Pulgatório. É óbvio que aceitamos! e assim a Pulgatório recebeu o seu primeiro grande carregamento de mulheres. Ao todo eram dezesseis: quinze meninas, sendo que a mais velha deveria ter no máximo dez anos e a vovozinha de uma delas, que era a responsável pela integridade física e sexual do grupo.

Como uma das meninas era sobrinha (ou sobrinha-neta, não sabemos ao certo) do vice-governador do estado (Pio Canedo), a Pulgatório não foi invadido pela polícia, a exemplo de outras repúblicas, mas ficou muito bem vigiada. Pela frente e pelos fundos. Em alguns momentos houve até a necessidade dos republicanos mostrarem os seus documentos pessoais para poderem entrar em sua própria casa. Para tornar o ambiente melhor ainda, a vovozinha decidiu “por ordem” na república, protestando contra o hábito dos republicanos beberem cachaça, o que para ela era um absurdo e um desrespeito total.

Domingo, 20 de abril de 1.969, duas horas da tarde, já devidamente calibrados por doses maciças de cachaça, Claudim Putero, Zé Maria Ramos e Caiafa, sozinhos na república, faziam uma serenata para si mesmos e discutiam as “deliberações” da vovozinha. À discussão seguiu-se a indignação. Neste momento bateram à porta. Claudim continuou tocando o seu violão (coisa que ele viria a aprender a fazer efetivamente uns quatro anos depois), Zé Maria foi atender. Abriu a porta. Eram duas das meninas – talvez a mais velha tivesse uns nove anos. Assim que entraram, Zé Maria fechou a porta e gritou: “cerca lá !” as meninas subiram as escadas correndo, uma vez que estavam alojadas no andar superior da casa. Ninguém foi atrás das meninas e a serenata voltou a rolar, agora sim com muito mais humor e gargalhada. Pouco depois bateram à porta novamente. Do lado de fora havia uma multidão composta de moradores da Pulgatório, da Necrotério, polícia e sabe-se lá mais o quê. O mínimo que se pretendia era o linchamento dos estupradores. A discussão foi áspera, mas por fim entendeu-se que o estupro nada mais era do que uma versão fantasiosa da vovozinha para justificar ou fortalecer os seus argumentos, as meninas sequer foram tocadas [7].

Mas o ressentimento da Necrotério em relação à Pulgatório permaneceu durante algum tempo. Um mês depois, corria uma quermesse no largo defronte à igreja do Chico de Baixo. Como qualquer quermesse de cidade provinciana, havia o inevitável “correio elegante” e também o tradicional “fulano oferece para fulana a música tal”. Havia muita gente no local, muitos necroterianos e apenas dois pulgatorianos até ser anunciado pelo alto-falante: “os rapazes da Pulgatório oferecem aos rapazes da Necrotério a música “Por isto corro demais”. Consta que até hoje procura-se o autor da brincadeira. Na época, diziam as más línguas, que havia até recompensa para se entregar o autor. Vivo ou morto.

Também dentro da Pulgatório este fato causou algumas desavenças. As maiores críticas eram no sentido de que a república passara a ser mal vista, podendo vir a ser rejeitada por eventuais turistas que pudessem causar a alegria de alguns republicanos. Esta discussão efetivamente acabou quando se propôs colocar uma mesa na Praça Tiradentes e uma placa com os dizeres: “REPÚBLICA PULGATÓRIO. Sexo 100% garantido. Inscrições aqui. Favor obedecer a fila.” Afinal, após dois meses de república, já se sabia o que as mulheres esperavam de uma república


[1] Posteriormente o Cesar do Cuzão veio a se tornar prefeito do Rio de Janeiro, já com o apelido de Cesar Maia.
[2] Antonio Pinheiro Neto, diretor geral da Escola de Minas na ocasião.
[3] Talvez por causa deste atropelamento a Aquarius tenha levado tanto tempo para ser ocupada, em função dos cuidados que passaram a ser adotados pela Escola de Minas.
[4] A constituição da república prevê a necessidade de haver unanimidade para a aceitação de um novo republicano, evitando-se o ingresso de pessoas que possam não ser do agrado de todos.
[5] Até aqui, falamos em República Pulgatório, mas este nome somente passou a ser a designação oficial da república a partir da promulgação da constituição, quando então foi votado, juntamente com os artigos da carta magna da instituição. O nome Pulgatório foi escolhido por unanimidade, primeiro porque era o mais tradicional de todos e segundo porque era bem sugestivo – principalmente quando se conheceu o local a que dava nome anteriormente.
[6] Como é de praxe, nos dias 21 de abril, a capital do Brasil é transferida simbolicamente para Ouro Preto, para relembrar a Inconfidência Mineira. Em 1.969, o país passava por um dos períodos mais turbulentos de sua vida política. A capital foi transferida simbolicamente para Ouro Preto, mas a quantidade de policiais e militares que apareceu na cidade naqueles dias não tinha nada de simbólico.
[7] Este episódio deu origem inclusive ao primeiro hino da república.

MAGIA OUROPRETANA



Houve um tempo em que Ouro Preto dormia. Passada a febre do ouro, da efervescência da Inconfidência Mineira e da mudança da capital para Belo Horizonte, a cidade de Ouro Preto passou a viver apenas de si própria e para si mesma, sem ter que prestar contas a ninguém mais. Ficou menor do que já houvera sido, menos importante, menos procurada, menos falada, menos relevante – tornou-se ensimesmada. Esse período que teve início no começo do século XX estendeu-se até o final dos anos 60, quando foi redescoberta pelo turismo, trazido pelas mãos do Festival de Inverno. Contribuiu ainda para o fim dessa introspecção o incremento de estudantes tanto pela alteração da legislação relativa aos vestibulares, como pela abertura de novos cursos superiores.

Antes de abandonar de vez seu recolhimento provinciano, a vida social pulsava até as dez da noite, que era o horário de término da segunda sessão de cinema. A partir desse horário apenas algumas rodinhas de dedo de prosa persistiam por mais alguns minutos e logo todos se recolhiam. Recolhiam-se e iam dormir, uma vez que nada mais havia por fazer. Não havia a novela das dez e até pouco tempo antes nem sinal de transmissão. O último a se retirar era o pipoqueiro, que o fazia após amarrar o seu carrinho no poste em frente ao cinema.

Os estudantes, cerca de uns duzentos na Escola de Minas e uns cem na de Farmácia, acredite, se acordados, estavam estudando para as provas do Cristiano, Valter Dornelas, Joaquim Maia, Calaes e outros monstros sagrados. Havia pouco mais de uma dúzia de repúblicas federais e em nenhuma delas havia boite.

Não havia internet, computador, telefone celular e nem calculadora HP, a tecnologia mais avançada era a régua de cálculo, a cujo aprendizado a Escola de Minas reservava todo um semestre. Sem o conhecimento de seu manejo era impossível avançar no conhecimento científico que exigisse cálculo envolvendo funções trigonométricas ou logarítmicas. E, ao contrário dos sistemas atuais, as réguas de cálculo não tinham o conceito de interface amigável – era um verdadeiro bicho de sete cabeças – as mais completas, como a Aristo e a Faber Castell com até 24 cabeças, ou escalas, se preferir.

A cidade começava nas Cabeças e terminava nas Lajes ou na igreja de Santa Ifigênia, estendendo-se até a Barra, nada de construções nas encostas dos morros. Saramenha era considerada quase como outra cidade, à qual se ia por uma rodovia tortuosa e estreita, as instalações no Morro do Cruzeiro sequer haviam sido começadas. Neste pedaço de mundo viviam cerca de vinte e cinco mil pessoas. E para se locomover em um espaço tão limitado, tortuoso e íngreme, poucos se davam ao luxo de um veículo próprio.

Por volta das onze horas da noite, no Lampião, último bar a fechar na Praça Tiradentes, seu proprietário começava a jogar água pelo chão sob o argumento de que precisava deixá-lo limpo para o café da manhã do dia seguinte. Propositadamente ia molhando os pés e as calças dos bêbados mais resistentes, dando-lhes a entender que era chegada a hora de pagarem a conta e irem dormir. No Pilão, do outro lado da Praça, se ainda havia clientes a esticarem a conversa, seus garçons iam colocando as cadeiras sobre as mesas, num indicativo claro de que o serviço começaria a ficar a desejar. Na Lanchonete Marília, junto à parada do ônibus, seu Wilson já fechava as portas, permitindo apenas a saída dos que ainda lá estavam. O CAEM, se nada havia de especial, talvez já estivesse fechado às nove horas.

Os únicos lugares que ainda ficavam abertos até mais tarde eram o Irineu, no começo da subida da Rua Direita, o Bar do Professor, no meio da Rua São José e o caldo de mocotó do Adilson no Largo da Alegria. O Irineu era um muquifo de dois metros de fundos por um de largura, limitando-se a um balcão encardido servido pelo seu dono, cujas unhas sujas e sem aparar denotavam que higiene não fazia parte de seu cardápio. Mas era o único lugar de Ouro Preto onde você poderia comer um delicioso e honesto queijo quente no pão francês à uma da manhã. O Bar do Professor, que adotou este nome porque seu proprietário dizia-se professor de batidas, ficava aberto até que seu último freguês pedisse a saideira. Invariavelmente esta era a senha para o Zé Otaviano ir embora. O Adilson era uma espécie de pronto socorro dos que exageraram na cachaça: seu caldo de mocotó servido em generosas doses levantava até defunto.

Afora estes três locais, Ouro Preto dormia. Na Praça Tiradentes nem um carro, nem um turista, nem um morador de rua. Soberba, com sua iluminação nostálgica, do alto lançava sombras sobre o restante da cidade. Olhando a partir da Praça, a Rua Direita era um deserto, nenhum automóvel, nenhuma pessoa, apenas uma pálida fresta de luz denotava que o Irineu ainda esperava por algum noctívago que dele se lembrasse. Olhando-se para o lado oposto estava a Rua do Ouvidor, também deserta, a dormir. O largo em frente à igreja do Chico de Baixo, que ainda não conhecia a ferinha de artigos de pedra sabão, ficava vazio e silencioso, apenas um viralata se atrevia a cruzar local tão ermo. Ao longe uma luz difusa na neblina indicava a Igreja de Santa Ifigênia.

E, era nesses instantes em que a Ouro Preto conhecida de todos dormia, que outra Ouro Preto, menos conhecida, acordava. Era uma mistura de passado, presente e futuro; uma mistura de real e irreal, uma mistura de realidade e sonho – era como se abrisse uma janela no tempo e no espaço, permitindo a existência de uma Ouro Preto quase paralela, onde quase tudo era possível. Este paralelismo existia por obra do acaso e da própria história e essas realidades quase paralelas se tocavam e até se confundiam.

O ritual começava quando Tiradentes, com seu jeito Macunaíma de ser, descia de seu pedestal e ia até o chafariz que se encontra em frente ao Museu para fazer a sua higiene diária. Escovava os dentes lavava o rosto, penteava os cabelos e a barba e saía para uma inspeção rotineira pela Praça, da qual se julgava zelador. Enquanto caminhava vagarosamente, ía cantarolando uma canção que compôs ao longo dos anos para acalentar a sua sina:

“Ser estátua é uma buraco
e ninguém tem dó,
é preciso ter um saco
de filó,
pessoal lá embaixo passa
com a garrafa de cachaça
e eu aqui fico sem poder me embebedar
mas assim não vou ficar!”


Qual uma senha, sua cantoria desafinada tomava conta da praça e servia de chamamento para outras figuras que a ele iam se juntando. Primeiro eram as Virtudes Cardinais que encimam os quatro cantos do museu. Saídas dos escritos de Platão, com seu trajar helênico e porte de semideusas, desfilavam elegância em sua chegada aos paralelepípedos úmidos da praça.

Naquele dia, a primeira a chegar foi a Força, ou Fortaleza como a chamam alguns, com a sua senha característica:
- Salutem pluribus!


A fortaleza é a virtude que permite ao homem perseverar no bem. É pela fortaleza que se consegue resistir às tentações nos momentos difíceis. Esta virtude dá força e firmeza para se superar os obstáculos na vida moral. A fortaleza é a virtude dos profetas, dos mártires e dos apóstolos.

Depois foi a vez da Temperança:
- Et columbatum est!


A temperança é o saber equilibrar os desejos próprios. Consiste no domínio da vontade sobre os instintos. É a virtude que faz com que o homem não ceda aos impulsos e às paixões. Orienta para o bem os apetites sensíveis, guarda uma sã discrição e não se deixa arrastar pelas paixões do coração.

Seguindo seus princípios, passado algum tempo e nada acontecendo de anormal, chegou a Prudência:
- Donae donaevatum!


Esta virtude refere-se ao discernimento racional sobre o verdadeiro bem e os meios para atingi-lo. Não se trata de medo, timidez nem dissimulação. É a virtude que ajuda a diferenciar o que é bem do que é mal. Rejeita a precipitação e a improvisação. Chamam-lhe condutora das virtudes, porque as guia e indica a sua regra e medida.

E fazendo jus à premissa de que tarda, mas não falha, chegou a Justiça:
- Lex persegue mea!


Esta é a virtude daquele que, por sua própria vontade, deseja dar a si e ao próximo o que lhes é devido. Entre outras coisas, a justiça passa pelo respeito para com os outros. A justiça defende a dignidade humana e os direitos de cada um. Pela justiça atinge-se a harmonia nas relações interpessoais.

A todas Tiradentes respondeu com a sua contrassenha:
- Rumble, tumble, frejurebus!


Essa mania de senha e contrassenha era uma das heranças da Inconfidência que Tiradentes fazia questão de manter para evitar a presença de estranhos em seus assuntos. Assumindo a certeza de que se encontram a sós, passaram a conversar, aliás, a conspirar, para não perderem outra velha mania.

Tiradentes, na condição de anfitrião, puxou o assunto:
- A vida é de uma ironia sem par, vocês brotaram de um livro da Platão, A República, onde ele traz o discurso da educação. Eu tentei trazer a República para este país e um dos meus mais acalentados sonhos era o de fundar uma escola de nível superior. Ao final de tudo viemos todos morar nesta cidade de Repúblicas, em frente a uma das mais tradicionais escolas superiores.

Sem que se dessem conta, apareceu uma garrafa de cachaça que ia passando de mão em mão, soltando as amarras internas e relaxando a musculatura de quem ficara o dia inteiro em pé, inerte, que nem uma estátua. Estavam entretidos a comentar as mudanças pelas quais Vila Rica – é este o nome pelo qual tratavam Ouro Preto – estava passando que nem se deram conta da chegada de mais uma pessoa, com seu sotaque característico.
- Verbum dimissum!
- Rumble, tumble, frejurebus!


Este foi recebido pela Força:
- Gorceix, quanto tempo, meu caro! Que oportuna é a sua presença, estávamos falando justamente sobre a educação, tema que lhe é tão familiar. O que você nos conta de novo?
- Quase nada, o tempo para nós estátuas, parece não passar. O nosso destino é o de ficarmos parados, observando os fatos sem deles poder participar. E, contrariar o destino, como vocês sabem, meus caros, é castigo na certa. Tal qual aconteceu com aquela mocinha que chegou a ser a namorada de D Pedro I, a...
- Sinhá Olympia!
- Isto mesmo, a mocinha Olympia Cotta que vimos crescer e se tornar uma das mais belas moradoras desta Vila Rica. Tão deslumbrante era que chamou a atenção do próprio imperador, que em matéria de mulher não tinha por hábito perder a viagem.


E como tudo continuava normal, a Prudência entrou na conversa:
- Foi um caso de amor fulminante, D Pedro, o todo poderoso, caiu de amores pela donzela e queria, a todo custo, fazê-la sua amante oficial. Levou-a a conhecer o Rio de Janeiro, sede do reino, fazendo-a participar de inúmeras festas em seus palácios. Para a nobreza deu a entender que ela poderia vir a ser uma futura imperatriz, ou pelo menos, dama da corte. Levou-a a passear em Petrópolis, Teresópolis e outros locais aos quais só levava as pessoas que lhe eram próximas.


Ruídos vindos dos lados da Igreja das Mercês de Cima interromperam a conversa. As estátuas, assustadas e irritadas com o visitante indesejado viram o estudante aparentemente bêbado atravessar a praça e saudá-los de forma amigável:
- E aí, gente boa!

Não percebeu que falava com estátuas. Apenas achou meio estranho a forma de se vestirem e o ar aristocrático que delas emanava. Mas, com a onda hippie que já circulava em outros locais não achou nada de anormal. Uma delas, da qual apenas chegou a perceber a cabeça, lhe parecia familiar. Já havia visto aquela figura de óculos em outro lugar. Só não se lembrava onde. Mas como não responderam à sua saudação, resolveu continuar o seu caminho. Sabe-se lá o que fazem esses bebuns exóticos em plena Praça Tiradentes a esta hora da madrugada, com todo este frio. E saiu cantarolando pela Rua do Ouvidor abaixo:

Ê vida marvada,
Num dianta fazê nada
Prá que tanto estudá
No fim do ano ninguém vai passá...

A Justiça, com aquele estigma que lhe é característico, passou a régua na história:
- infelizmente, D Pedro teve que partir para Portugal e o romance passou a ser apenas mais uma página virada da história. De tudo o que sobrou desse romance foi uma estátua da Sinhá Olympia que o próprio imperador mandara esculpir e não teve tempo sequer de vê-la terminada. Abandonada em uma fazenda no interior do estado do Rio de janeiro, a estátua revoltada com o descaso aceitou o pacto de voltar à vida: somente carregaria consigo a lembrança de sua vida passada. E hoje vive a perambular pelas ruas de Vila Rica a mendigar pela sua sobrevivência à custa de suas histórias.

A Temperança, que até então cuidara apenas da garrafa de cachaça, entendeu que era a sua deixa para participar da conversa:
- Sem recursos optou pela extravagância no trajar: um vestido roto de estampas coloridas puído pelo uso, um chapéu de palha adornado por organza barata e flores murchas, sapatilhas de solado de corda e lona vermelha amarelada pelo tempo, uma echarpe imitação barata de pele animal e um cajado com fitas multicoloridas penduradas. É uma visão quase bíblica...

E, cada qual a seu tempo, foi fazendo suas considerações a respeito da Olympia que viam passar todos os dias pela Praça, com as observações de Gorceix, que pouco a via mas sempre dela ouvia falar. Tiradentes, provavelmente, era o que a via a uma distância menor:
- Olhos miúdos encravados em uma face sulcada pelo tempo. Sobrancelhas acertadas a lápis preto e boca desenhada com batom de vermelho intenso não conseguem esconder a penugem escura que se assenta sobre lábios que se mexem nervosamente como se estivessem a mastigar lembranças. Andar lento, num arrastar de pés, ajudada pelo bastão que lhe serve de apoio. Em seu lento caminhar, para mais do que anda, ora para pedir um cigarro, ora para tirar uma foto junto a algum turista, ora para pedir uns trocados para a cachaça, ora para contar mais uma de suas histórias.

Gorceix, mesmo na sua condição de observador menos privilegiado, atalhou:
- cigarros e trocados obtidos a partir de histórias que até as pedras do calçamento já conhecem. mas, embora as suas histórias sejam a pura verdade de sua vida anterior, todos as ouvem por caridade em relação ao que entendem ser a sua forma de loucura. Exceto nós e mais um e outro estudante que perambulam pela madrugada, ninguém acredita nisto.
- É, sei bem como é isto, também eu, Tiradentes, fui tomado por louco, visionário e coisa e tal. Fico a imaginar como as pessoas me receberiam se eu abdicasse de meus direitos e deveres estatuários e passasse a viver nas ruas de Vila Rica, com este cabelão, esta barba, esta vestimenta, uma corda no pescoço e contando histórias da Inconfidência.

Novos ruídos vindos agora dos lados da Igreja do Carmo novamente interromperam a conversa. Os ruídos continuaram anonimamente por um tempo até que a figura de Olympia fosse se mostrando, lentamente, na praça. Seu andar arrastado e o forte odor de tabaco e álcool foram invadindo o espaço que até então era somente das estátuas. Desta vez não houve susto ou irritação, apenas regozijo, afinal ela já fizera parte de seu mundo. E, ademais, quem iria acreditar em Sinhá Olympia se ela falasse que de madrugada conversava com estátuas? 


Tiradentes, que lhe era o confidente mais próximo, já se adiantou para recebê-la:
- Minha linda, estávamos ansiosos aguardando pela sua presença.
- O dia hoje foi complicado, tive que ficar horas bancando a modelo para um tal de Zé Nelson, aquele que só faz gravuras de santos e anjos barrocos.
- É, mas você está ficando importante, cada dia que passa é uma nova homenagem que recebe. Agora é até tema de escola de samba...
- Não tanto como você, não tanto. Serei homenageada pela Mangueira, é verdade, mas você já foi a figura principal de diversos enredos...
- Mas fiquei sabendo que estão até a preparar-lhe uma homenagem maior: vai ser nome de escola de samba aqui na nossa Vila Rica.
- Também é verdade, mas tanto em um caso como no outro sou apresentada como uma excentricidade, algo exótico, uma louca reverenciada, o que não é o seu caso, que na falta de escola de samba virou até nome de cidade, praça, rua, etc. E tem até dia especial para lembrá-lo. Você desperta nas pessoas orgulho, valentia, desassombro, eu sou motivo de riso, galhofa e curiosidade. Você e as demais amigas do museu são apresentados como exemplos a serem seguidos e eu a ser evitado. Esta condição não me causa prazer algum.
- É, mas em compensação nunca tive a oportunidade de ser visitado pessoalmente por tantas personalidades de importância como Vinicius de Moraes, Juscelino Kubitscheck. No máximo recebi a visita da Guarda Real Portuguesa para me prender e o padre para me dar a extrema unção.
- Ou como já dizia Platão, o inventor dessas moças aí, o homem é a medida de todas as coisas, tanto das coisas que são o que são como das coisas que não são o que não são.


Vendo que os primeiros clarões da madrugada já começavam a cortar o negrume da paisagem, a Prudência deu o alarme:
- Gente, tá na hora. É cada qual para o seu canto. Amanhã a gente volta para continuar este papo.

Enquanto todos já se preparavam para se retirar, a Temperança, com seu senso de observação aguçado, sentenciou:
- Podem ter certeza, amanhã, quando a Olympia, no meio de suas histórias, enfiar esta conversa que teve com o Tiradentes, já estarão a interpretar como se fosse um novo caso de amor a habitar o imaginário de seu almanaque.

E, após um “Factus est”, a usual saudação de despedida, cada qual foi para seu canto deixando Olympia sozinha no meio da praça. Em suas mãos apenas a garrafa de pinga que lhe deixaram por cortesia e uns três ou quatro Gauloises que filara de Gorceix.

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A fila era muito grande na porta do Purgatório, mas andava rápida. Um senhor de óculos de lentes grossas, cabeleira muito alva e túnica branca fazia a fila andar. Retirava uma folha de papel de uma pilha imensa chamava as pessoas pelo nome, como se já soubesse de sua posição na fila, lia rapidamente o que se encontrava no resumo de seu histórico pessoal, fazia um breve comentário e indicava-lhe seu destino:

- Fulano de Tal, também conhecido como Isto e Aquilo. Blá, blá, blá... e, entre outras coisas ainda foi político, multiplicando seu patrimônio pessoal à custa da pobreza de muitos. Sinceramente... Elevador à esquerda, último subsolo! Próóóóximo...

- Cicrana da Silva, também conhecida como Dona Nininha. Hum...humm... hummm. E ainda foi professora de colégio público de periferia e criou sozinha seus três filhos. Parabéns, você mereceu. Elevador à direita, cobertura! Próóóximo...

- Olympia Angélica de Almeida Cotta, também conhecida por Sinhá Olímpia, Dona Olímpia e por Tia Olímpia. Interessante!!! Retornada à vida mundana em Santa Rita Durão, distrito de Mariana, em 1889 e refalecida em Ouro Preto neste ano de 1976. Blá... blá... blá. Especialista na arte de encantar, digo enganar pessoas, para de elas obter favores. Contadora de histórias mirabolantes para obter recursos para alimentar seus vícios, era só o que me faltava... Elevador à esquer... Pera aí, tem alguma coisa manuscrita aqui no final da página e eu conheço esta caligrafia. Desculpe-me, senhora, elevador à direita, cobertura. Existem algumas pessoas muito importantes interessadas em ouvir as suas histórias. Próximo...

Naquele dia a praça ficou mais triste e as estátuas reuniram-se em silêncio total. Vila Rica ficara mais triste, o mundo ficara mais triste, mas apenas as estátuas com aquela mania de fitar eternamente o horizonte perceberam o surgimento de uma nova estrela no firmamento.


Esta história é dedicada ao amigo kelé, que foi o primeiro ser vivo, sóbrio, a ouvir as estátuas conversarem.

A MOÇA DE VIÇOSA



Mulher, festa e cachaça são três ícones na vida de todo pulgatoriano. Não necessariamente nesta ordem, mas quem não soube valorizar estes paradigmas não pode ser considerado um legítimo pulgatoriano de primeira grandeza. É dispensável explicar o porquê. Alguns ainda acrescentariam a pelada, isto é, o racha do Bêra, bem entendido, porque a outra pelada já abriu a lista de preferências pulgatorianas. Outros acrescentariam o joguinho de baralho, caixeta, nos tempos mais modernos; king em épocas mais antigas; e truco nos primórdios da casa. O jogo de truco ainda é passível de ser aceito, porque se assemelha muito à prática sexual: se você não tem um bom parceiro precisa ter uma mão muito boa.



O ano de 1.969, com o episódio das meninas de Muriaé e posteriormente com o Festival de Inverno, tornaram a Pulgatório uma República de referência já no seu primeiro ano de vida. A sua procura por parte de turistas, sejam eventuais de final de semana, sejam de excursões universitárias, principalmente femininas, tornou-se uma constante. Não cobrávamos nada por isto, bastava o prazer da companhia.

No final do ano de 1.969 chegou à República uma carga completa de alunas de um curso de arquitetura da Universidade de Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul – você é capaz de imaginar o que era a distância Ouro Preto – Santa Maria em 1.969? Seguramente umas 50 horas de viagem – dose para leão... Protegidas pela distância da impunidade, fizeram e aconteceram – namoraram, beijaram e tudo mais que o tempo e a época dos fatos permitiram. Na saída, apenas um envergonhado tchau, nem endereço e nem telefone, temerosas que suas aventuras chegassem até Santa Maria – 50 horas distantes de suas aventuras de verão. O Malão, que ficara deveras apaixonado por uma delas, ficou inconsolado – naquela época a gente tinha essa frescura de ficar apaixonado e o Malão era o campeão desse sentimento. E como fazer para dizer à mocinha sobre sua paixão, se nem endereço e nem telefone haviam sido deixados?

Mas a Pulgatório já tinha seus referenciais. Outro pulga namorava uma moça que estudava em Viçosa, cuja irmã lecionava na Universidade de Santa Maria. E, foi assim, que aquela estudante de arquitetura que derretera o coração do Malão e que se julgava a salvo pela barreira da distância, ao chegar à sua escola recebeu o recado da Pulgatório. A resposta foi rápida:

- Pelo amor de Deus, deixa quieto que estou noiva aqui em Santa Maria e ele não pode saber de nada!!!



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Otávio, ex-morador da Aquarius, enveredou pelo caminho das letras. Seu primeiro feito foi o de produzir um valioso almanaque sobre as repúblicas de estudantes de Ouro Preto e Mariana. Trabalho de pesquisa e paciência, juntando fragmentos de histórias e lendas. Aos poucos as casas dos estudantes foram contando as histórias de suas histórias. Foi nesta ocasião de final de século que conheci Otávio, que nessa ocasião já era o Jaka. Queria conhecer a história da Pulgatório e lhe foi sugerido que me procurasse. Acabamos amigos.

Posteriormente encantou-se com o Movimento Estudantil dos anos 60 e 70 e retornando às suas fontes, voltou a procurar-me. Contei-lhe um pouco da experiência vivida como estudante e participante do DA daquele período. Da mesma forma procurou por outras fontes e obteve depoimentos inéditos de alguns participantes muito mais famosos. Rendeu-lhe um novo livro e abriu-lhe as portas de vez para esse nicho do conhecimento histórico. Seu nome passou a ser uma referência para palestras, seminários e debates sobre o assunto. Inevitavelmente, novos livros acompanharam esse envolvimento. E sua visibilidade foi aumentando com o volume e qualidade de sua obra.

Até que um dia, uma curiosa professora, sedenta de saber, passando os olhos por sua obra deparou com um nome que lhe era familiar. Havia muitos anos que não o via e nem mesmo sabia de seu paradeiro, mas era uma pessoa que lhe trazia lembranças agradáveis. Que mal haveria em tentar restabelecer a antiga relação? Como não havia outra maneira de fazê-lo e achando que o Otávio seria um meio eficaz de alcançar seu intento, encaminhou-lhe um e-mail, mais ou menos assim:

Prezado Sr Otávio,
Estava lendo seu trabalho e encontrei o nome do sr José Cesar Caiafa Jr, que conheci quando ele era estudante em Ouro Preto em 1998. Se possível, peço-lhe o favor de me passar o endereço de e-mail dele para que eu possa restabelecer o contato.
Atenciosamente,
fulana de Tal

Jaka leu e releu e achou que alguma coisa não combinava: Caiafa a quem a remetente se referia, era bem conhecido seu e sabidamente o mesmo nunca havia sido estudante em Ouro Preto na época mencionada. Havia se formado pelo menos uns vinte e tantos anos antes. Duas hipóteses lhe ocorreram. A primeira era a de que a moça conhecera Caiafa em Ouro Preto, em 1998, e o tomara por estudante. Esta hipótese, embora remota, não estaria de todo descartada. A segunda hipótese era a de que a pessoa que a remetente conhecera não seria o Caiafa, mas sim outra pessoa que se passara por ele. Também esta hipótese teria pouca chance de ser verídica. Na dúvida, o melhor a fazer era não revelar o e-mail de seu amigo.

Mas havia alguma coisa, talvez uma espécie de força oculta, naquele e-mail que não deixava Otávio tranqüilo com a sua decisão de não levar o caso adiante. Releu, mas não conseguiu inclinar-se por nenhuma das duas hipóteses. Na dúvida encaminhou-me o e-mail. Nada disse, apenas encaminhou.

Destinatário privilegiado de toda produção do Otávio, não dei muita atenção àquele e-mail a mais na minha caixa de entrada. Estava acostumado a deixar a leitura dessa fonte para quando tinha disponibilidade de tempo.

No dia 8 de julho de 2009, em um raro momento de ociosidade, passei os olhos descuidadamente, esperando estar recebendo mais um informativo do meu amigo sobre as novas atividades conectadas ao Movimento Estudantil.  Fiquei mais surpreso do que o próprio Otávio. Além do fato de nunca haver estudado em Ouro Preto em 1998, jamais ouvira falar do nome da remetente. Meu julgamento compatibilizava-se com a segunda hipótese do Otávio: alguém usara o meu santo nome em vão. Melhor não tentar saber o porquê. Talvez um dia alguém revelasse sua dupla identidade. Ou não.

Mas aquele e-mail que tanto intrigara Otávio agora estava em minha frente a desafiar minha imaginação e lembrança. Seria um procedimento conspiratório de profissionais para ser tão detalhista. Ciente de minhas fraquezas e dos desatinos que já cometi, resolvi investigar a pessoa por trás daquele nome. Viajei pelo Google, Orkut, etc, até encontrar um rosto que me era familiar, ou pelo menos parecia ser. Não tinha nada a ver com 1998, mas sim com um tempo bem anterior. E a lembrança daquela pessoa que supunha ser a Fulana de Tal também me era muito agradável. Como nada havia a perder, encaminhei-lhe um e-mail que simbolizava tudo:

- Já não nos conhecemos de alguma vida passada?

Em uma semana, após uma frenética troca de e-mails, tímidos, a princípio, e depois ousados, descobrimos que sempre estivemos longe dos olhos porém próximos de uma só vida. Tivemos o nosso primeiro encontro, ou reencontro, melhor dizendo, e resolvemos dar curso a uma história interrompida há 40 anos.


Era a moça de Viçosa que estava de volta... 




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De início, procuramos colocar nossas costuras em dia: falamos de nossas vidas paralelas, de nossos trajetos e de nossas famílias. Não foram necessários muitas horas para percebermos que a vida nos abria uma nova janela. O problema era que agora já tínhamos outros status, não éramos mais dois jovens adolescentes com toda a vida pela frente, éramos dois adultos com todo o passado pelas costas. Tínhamos compromissos de adultos, vidas de adultos, responsabilidades de adultos, imagens de adultos e limitações de adultos.

Escolhemos a cidade de Gramado, na serra gaúcha, para sentir até onde as nossas limitações de adultos poderiam superar as nossas vontades adormecidas de adolescentes. Mas antes de irmos para Gramado, fui buscá-la na rodoviária de Porto Alegre. Era o mês de julho e fazia muito frio. Encontrei-a de pé, junto à porta do ônibus que viera de São Borja. Não foi difícil reconhecê-la, era a única viva alma que se aventurara àquela hora, naquele local. O reencontro foi meio frio, meio formal, típico de pessoas que não tem nada de muito íntimo. Tomamos um café rápido e seguimos para Gramado.

No ônibus para Gramado, já mais aliviados da tensão do reencontro, começamos a perceber que não havíamos mudado tanto nesses 40 anos, basta ver os nossos argumentos para justificarmos as nossas ausências. Aos meus havia dito que iria para um congresso de corretores no Rio Grande do Sul e ela informara aos seus que estaria em uma exposição de artes em Gramado. Parecíamos dois remanescentes da Guerra Fria trocando informações ultra-secretas em um filme de James Bond. Essas peraltices da terceira idade nos mostraram que, se estávamos fazendo alguma coisa de errado, iríamos errar juntos.

Já em Gramado fomos deixando de lado os nossos receios e assumindo as nossas intimidades. Nossas defesas foram se abrindo e nossas vontades foram se impondo. No final do dia descobrimos que já estávamos casados e já nos permitíamos dar início à nossa lua de mel, com 40 anos de atraso.

Mas ainda havia dois problemas a resolver. Tínhamos que fazer com que as nossas famílias entendessem e aceitassem a nossa nova situação e tínhamos que resolver o problema da distância, afinal São Borja fica a mais de oito horas de viagem de Porto Alegre, que fica a mais de mil quilômetros de São Paulo.

Em 1.969, no auge do nosso primeiro namoro, ela esteve em Belo Horizonte conhecendo meus pais e meus irmãos e eu estive em Santa Maria conhecendo sua mãe e seu irmão. Esse procedimento era tradicional, quando se tratava de um caso mais sério, a aceitação dos pais era fundamental para que o relacionamento prosperasse. Agora teríamos que fazer roteiro semelhante, só que o aval teria que vir dos filhos e dos amigos.

Aos poucos fomos amadurecendo essa ideia. 





E deixando que os outros também se acostumassem a ela. 





Fomos retomando os nossos espaços...

Começamos a colecionar lembranças do tempo vivido e também do tempo que deixamos de viver. Muita conversa para ser colocada em dia, muito ainda por se fazer. Muitas lembranças de bons momentos, muitas risadas e tristeza alguma, apesar de estarmos há tanto tempo afastados, nunca deixamos de ser amigos.

E a encurtar as diferenças que nos separavam. A vontade da vida ser vivida e retomada foi um motivador não só para nós, mas também para todos que passaram a torcer e contribuir para que tudo desse certo. Foi muito mais fácil do que em 1.969, quando ainda éramos visto como jovens, como todos os jovens como assim eram vistos.

A vida foi ficando comum no relacionamento incomum. O que um dia foi impensável tornou-se parâmetro de apresentação pessoal. Os círculos de amigos foi se fechando e se aceitando - é como aqueles 40 anos não tivessem se passado. Seria como se o tempo tivesse parado para respirar e se esquecido de voltar e de repente lembrou-se de que sua tarefa ainda não estaria cumprida. Era necessário documentar o que ficara perdido nas dobras do tempo. 

No início foi um parágrafo de um livro comemorativo dos 40 anos da República Pulgatório, homenagem meramente tangencial, uma vez que o espírito do conto não era exatamente a celebração do retorno, que ainda não acontecera e que nem sequer sabíamos que um dia ele poderia acontecer. Mas a filipeta que antecedeu ao lançamento do livro tinha uma mensagem profética "por enquanto em livro, mas brevemente em uma vídeolocadora"

A videolocadora ainda não aconteceu, mas já chegamos perto: