Preliminares
Começou então um grande movimento na escola por novas moradias para estudantes, liderado pelo então tesoureiro do Diretório Acadêmico, Cesar do Cuzão – que veio a abandonar a escola, por medo do Decreto Lei 477 e exilou-se no Chile[1]. O objetivo deste movimento era político, isto é, mostrar aos estudantes que o DA existia e, de outro, era o de alertar as autoridades para o drama dos EST – “estudantes sem teto”. Para isto era necessário dar visibilidade ao movimento. Não bastava sensibilizar a opinião pública ouropretana – esta já conhecia o problema – o importante era atingir o noticiário nacional a partir de uma cidade, como Ouro Preto, que estava à margem da vida política do país. A solução encontrada foi a de montar um acampamento na Praça Tiradentes. Nos mesmo moldes que são hoje os acampamentos dos sem-terra.
A reação foi rápida: a Escola de Minas, dona de uma das maiores verbas do Ministério da Educação, comprou diversas casas – muitas delas na rua do Paraná, onde estão hoje as Repúblicas do Pulgatório, Aquarius, Nau Sem Rumo e Ninho do Amor – para transformá-las em moradias para estudantes. A Ninho do Amor, assim com a Nau Sem Rumo, já existiam como repúblicas em outros locais, porém ocupando imóveis em condições precárias, por isto foram premiadas pela Escola de Minas com os imóveis que ocupam até hoje. Na Pulgatório o processo foi diferente.
Diversas repúblicas em situações precárias reivindicaram o imóvel em que hoje se encontra a Pulgatório, mas a Escola de Minas mostrou-se muito vacilante no atendimento destes pedidos. Diante desta hesitação, a casa, que já se encontrava em condições de habitabilidade, foi invadida por três repúblicas que a desejavam: a Pulgatório, a Tropicália e a Buraco Quente. A reação da diretoria da Escola de Minas foi rápida: convocou uma comissão de invasores para se explicarem. O objetivo era óbvio: a escola desejava a desocupação do imóvel e, para isto estava disposta a pressionar os estudantes que se opunham à sua vontade. Estávamos em três e a reunião foi com o próprio Pinheirinho[2]. Foi perguntado ao primeiro deles sobre qual a sua situação na escola. Era o Malão e ele estava repetindo algumas cadeiras do primeiro ano. A mesma pergunta foi feita ao segundo. Era o Babalu e ele estava cursando o segundo ano. O terceiro respondeu que era jornalista e estava apenas cobrindo os fatos. Certamente, receoso da repercussão na mídia, Pinheirinho arrefeceu seu ímpeto. Mas o terceiro não era nenhum jornalista - era o Caiafa. Mas valeu a intimidação e a escola “esqueceu” de pedir a desocupação do imóvel [3].
DA CONSTITUIÇÃO ESCRITA
De repente estávamos em quatorze pessoas com uma casa para habitar. E teríamos que nos suportar mutuamente. Inaugurar uma república, com quatorze moradores que nem sequer se conheciam muito bem é muito diferente de receber um ou dois novos moradores a cada ano: a pessoa que chega tem que se adaptar aos hábitos daquelas que lá já se encontram – afinal, ela se candidatou a isto [4]. No caso da Pulgatório, naquele momento, ninguém chegou antes, todos chegaram juntos; ninguém tinha que se adaptar a ninguém, todos tinham que se aceitar mutuamente. Já que pretendíamos transformar a casa em uma república, nada mais adequado do que criar uma constituição. Afinal, se todas as grandes repúblicas do mundo têm a sua, porque não teríamos a nossa ? E, em 25 de março de 1.969, promulgávamos a constituição da Magnânima República Parlamentarista do Pulgatório. Se a Pulgatório não viesse a ser uma grande república, pelo menos no tamanho do nome ela seria imbatível [5].
A constituição visava basicamente estabelecer uma regra de convivência para os ocupantes da casa, isto é, estabelecer o que era certo ou errado no entendimento da maioria. Alguns gostariam de ficar a noite inteira jogando truco, outros gostariam de dormir, outros gostariam de usar a sala para dar uma festa particular (não havia ainda a boite), e outros gostariam (ou precisariam) estudar – quem estava certo e quem estava errado ? Por isto, em um dos seus artigos dizia que “é proibido fazer uso da empregada para fins particulares, durante o seu horário de serviço". É óbvio que o objetivo desta cláusula era o de impedir que algum republicano pedisse para a comadre fazer o seu almoço ou mesmo lavar as suas roupas nas horas em que ela deveria dedicar-se à limpeza da casa. Houve republicano que preferiu não tomar conhecimento desta regra e fez uso da empregada. Pegou uma respeitável gonorréia. Poderia dizer-se que a constituição era sábia - escrevia certo por linhas tortas.
DA CONSTITUIÇÃO NÃO ESCRITA
Por razões de natureza óbvia, algumas regras não foram registradas na constituição da república porque nós não acreditávamos nelas ou porque não seria adequado fazer este registro em um texto que se pretendia ter como um quase documento. Uma destas regras era referente aos hábitos sexuais das pessoas. Acreditava-se que a família de um republicano era uma entidade quase sagrada, por isto era proibido comer a namorada, a irmã e a mãe do outro republicano. No primeiro ano de vida da república, descobrimos que a namorada não faz parte da família. No segundo ano de vida descobrimos que a irmã do outro republicano só faz parte da família dele até a gente comê-la. E, nas últimas décadas, após alguns republicanos terem passado a barreira dos trinta e dos quarenta anos, descobriu-se que mãe também se come. Afinal, algum dia alguém também comeu a nossa !
Provavelmente, alguns republicanos, já próximos dos sessenta anos, estarão se questionando se a regra previa ou não a hipótese de se comer a avó do outro republicano. Não, absolutamente nada foi combinado a respeito disto – as vovozinhas sempre foram consideradas fora da regra. Porque, não se sabe. Assim como as sobrinhas, também nunca houve qualquer restrição ao seu uso. Por isto o Zé Fortuna sempre trouxe suas sobrinhas para as festas da república. Considerando-se que o Zé formou-se há trinta anos e que durante todos estes anos ele tem vindo regularmente à república pelo menos três vezes a cada ano são quase noventa sobrinhas que ele apresentou na república. Família grande !
Quanto às primas, todo mundo sabe que Deus as fez para serem comidas. Quem ainda não comeu uma prima, que atire a primeira pedra. Prima é um parente que a gente até inventa quando não tem para poder comer. Por isto, entendemos que não haveria qualquer necessidade de se criar uma regra interna referente a prima, apenas para reforçar um hábito social.
DA INICIAÇÃO DA REPÚBLICA
Toda república precisa ter uma personalidade, isto é, uma característica que a torna diferente das demais e por isto a torna querida e desejada, justamente por aqueles que se identificam com esta característica. Assim é que, quando o estudante se identificava com o futebol, sua primeira opção era a PifPaf, quando a identificação era com a zorra, a opção era a Pureza. A Pulgatório não levava a qualquer referência específica – a república não tinha uma personalidade definida. A primeira tentativa de se dar uma personalidade à república aconteceu em 21 de abril de 1.969 [6].
Naquela época as repúblicas mais tradicionais já tinham seus nomes divulgados em diversos locais do Brasil: eram pessoas que já haviam estado em Ouro Preto, haviam gostado da cidade e também da hospitalidade da república em que estiveram. Esta hospitalidade era divulgada em seus meios sociais e não poucas vezes acabava fazendo com que aquelas pessoas retornassem a Ouro Preto com parentes, amigos e até mesmo excursões, para se hospedarem em uma república que mal podia acolher aos seus moradores. Se, em algumas repúblicas mais antigas sobravam interessados, na Pulgatório sobrava espaço. Naquele 21 de abril a Necrotério estava para receber uma turma de garotas de Muriaé. Não havia espaço suficiente para alojá-las, o jeito foi verificar se algumas poderiam ficar na Pulgatório. É óbvio que aceitamos! e assim a Pulgatório recebeu o seu primeiro grande carregamento de mulheres. Ao todo eram dezesseis: quinze meninas, sendo que a mais velha deveria ter no máximo dez anos e a vovozinha de uma delas, que era a responsável pela integridade física e sexual do grupo.
Como uma das meninas era sobrinha (ou sobrinha-neta, não sabemos ao certo) do vice-governador do estado (Pio Canedo), a Pulgatório não foi invadido pela polícia, a exemplo de outras repúblicas, mas ficou muito bem vigiada. Pela frente e pelos fundos. Em alguns momentos houve até a necessidade dos republicanos mostrarem os seus documentos pessoais para poderem entrar em sua própria casa. Para tornar o ambiente melhor ainda, a vovozinha decidiu “por ordem” na república, protestando contra o hábito dos republicanos beberem cachaça, o que para ela era um absurdo e um desrespeito total.
Domingo, 20 de abril de 1.969, duas horas da tarde, já devidamente calibrados por doses maciças de cachaça, Claudim Putero, Zé Maria Ramos e Caiafa, sozinhos na república, faziam uma serenata para si mesmos e discutiam as “deliberações” da vovozinha. À discussão seguiu-se a indignação. Neste momento bateram à porta. Claudim continuou tocando o seu violão (coisa que ele viria a aprender a fazer efetivamente uns quatro anos depois), Zé Maria foi atender. Abriu a porta. Eram duas das meninas – talvez a mais velha tivesse uns nove anos. Assim que entraram, Zé Maria fechou a porta e gritou: “cerca lá !” as meninas subiram as escadas correndo, uma vez que estavam alojadas no andar superior da casa. Ninguém foi atrás das meninas e a serenata voltou a rolar, agora sim com muito mais humor e gargalhada. Pouco depois bateram à porta novamente. Do lado de fora havia uma multidão composta de moradores da Pulgatório, da Necrotério, polícia e sabe-se lá mais o quê. O mínimo que se pretendia era o linchamento dos estupradores. A discussão foi áspera, mas por fim entendeu-se que o estupro nada mais era do que uma versão fantasiosa da vovozinha para justificar ou fortalecer os seus argumentos, as meninas sequer foram tocadas [7].
Mas o ressentimento da Necrotério em relação à Pulgatório permaneceu durante algum tempo. Um mês depois, corria uma quermesse no largo defronte à igreja do Chico de Baixo. Como qualquer quermesse de cidade provinciana, havia o inevitável “correio elegante” e também o tradicional “fulano oferece para fulana a música tal”. Havia muita gente no local, muitos necroterianos e apenas dois pulgatorianos até ser anunciado pelo alto-falante: “os rapazes da Pulgatório oferecem aos rapazes da Necrotério a música “Por isto corro demais”. Consta que até hoje procura-se o autor da brincadeira. Na época, diziam as más línguas, que havia até recompensa para se entregar o autor. Vivo ou morto.
Também dentro da Pulgatório este fato causou algumas desavenças. As maiores críticas eram no sentido de que a república passara a ser mal vista, podendo vir a ser rejeitada por eventuais turistas que pudessem causar a alegria de alguns republicanos. Esta discussão efetivamente acabou quando se propôs colocar uma mesa na Praça Tiradentes e uma placa com os dizeres: “REPÚBLICA PULGATÓRIO. Sexo 100% garantido. Inscrições aqui. Favor obedecer a fila.” Afinal, após dois meses de república, já se sabia o que as mulheres esperavam de uma república
[1] Posteriormente o Cesar do Cuzão veio a se tornar prefeito do Rio de Janeiro, já com o apelido de Cesar Maia.
[3] Talvez por causa deste atropelamento a Aquarius tenha levado tanto tempo para ser ocupada, em função dos cuidados que passaram a ser adotados pela Escola de Minas.
[4] A constituição da república prevê a necessidade de haver unanimidade para a aceitação de um novo republicano, evitando-se o ingresso de pessoas que possam não ser do agrado de todos.
[5] Até aqui, falamos em República Pulgatório, mas este nome somente passou a ser a designação oficial da república a partir da promulgação da constituição, quando então foi votado, juntamente com os artigos da carta magna da instituição. O nome Pulgatório foi escolhido por unanimidade, primeiro porque era o mais tradicional de todos e segundo porque era bem sugestivo – principalmente quando se conheceu o local a que dava nome anteriormente.
[6] Como é de praxe, nos dias 21 de abril, a capital do Brasil é transferida simbolicamente para Ouro Preto, para relembrar a Inconfidência Mineira. Em 1.969, o país passava por um dos períodos mais turbulentos de sua vida política. A capital foi transferida simbolicamente para Ouro Preto, mas a quantidade de policiais e militares que apareceu na cidade naqueles dias não tinha nada de simbólico.
[7] Este episódio deu origem inclusive ao primeiro hino da república.





