Mulher, festa e cachaça são três ícones na vida de todo pulgatoriano. Não necessariamente nesta ordem, mas quem não soube valorizar estes paradigmas não pode ser considerado um legítimo pulgatoriano de primeira grandeza. É dispensável explicar o porquê. Alguns ainda acrescentariam a pelada, isto é, o racha do Bêra, bem entendido, porque a outra pelada já abriu a lista de preferências pulgatorianas. Outros acrescentariam o joguinho de baralho, caixeta, nos tempos mais modernos; king em épocas mais antigas; e truco nos primórdios da casa. O jogo de truco ainda é passível de ser aceito, porque se assemelha muito à prática sexual: se você não tem um bom parceiro precisa ter uma mão muito boa.
Mas a Pulgatório já tinha seus referenciais. Outro pulga namorava uma moça que estudava em Viçosa, cuja irmã lecionava na Universidade de Santa Maria. E, foi assim, que aquela estudante de arquitetura que derretera o coração do Malão e que se julgava a salvo pela barreira da distância, ao chegar à sua escola recebeu o recado da Pulgatório. A resposta foi rápida:
- Pelo amor de Deus, deixa quieto que estou noiva aqui em Santa Maria e ele não pode saber de nada!!!
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Otávio, ex-morador da Aquarius, enveredou pelo caminho das letras. Seu primeiro feito foi o de produzir um valioso almanaque sobre as repúblicas de estudantes de Ouro Preto e Mariana. Trabalho de pesquisa e paciência, juntando fragmentos de histórias e lendas. Aos poucos as casas dos estudantes foram contando as histórias de suas histórias. Foi nesta ocasião de final de século que conheci Otávio, que nessa ocasião já era o Jaka. Queria conhecer a história da Pulgatório e lhe foi sugerido que me procurasse. Acabamos amigos.
Posteriormente encantou-se com o Movimento Estudantil dos anos 60 e 70 e retornando às suas fontes, voltou a procurar-me. Contei-lhe um pouco da experiência vivida como estudante e participante do DA daquele período. Da mesma forma procurou por outras fontes e obteve depoimentos inéditos de alguns participantes muito mais famosos. Rendeu-lhe um novo livro e abriu-lhe as portas de vez para esse nicho do conhecimento histórico. Seu nome passou a ser uma referência para palestras, seminários e debates sobre o assunto. Inevitavelmente, novos livros acompanharam esse envolvimento. E sua visibilidade foi aumentando com o volume e qualidade de sua obra.
Até que um dia, uma curiosa professora, sedenta de saber, passando os olhos por sua obra deparou com um nome que lhe era familiar. Havia muitos anos que não o via e nem mesmo sabia de seu paradeiro, mas era uma pessoa que lhe trazia lembranças agradáveis. Que mal haveria em tentar restabelecer a antiga relação? Como não havia outra maneira de fazê-lo e achando que o Otávio seria um meio eficaz de alcançar seu intento, encaminhou-lhe um e-mail, mais ou menos assim:
Prezado Sr Otávio,
Estava lendo seu trabalho e encontrei o nome do sr José Cesar Caiafa Jr, que conheci quando ele era estudante em Ouro Preto em 1998. Se possível, peço-lhe o favor de me passar o endereço de e-mail dele para que eu possa restabelecer o contato.
Atenciosamente,
fulana de Tal
Jaka leu e releu e achou que alguma coisa não combinava: Caiafa a quem a remetente se referia, era bem conhecido seu e sabidamente o mesmo nunca havia sido estudante em Ouro Preto na época mencionada. Havia se formado pelo menos uns vinte e tantos anos antes. Duas hipóteses lhe ocorreram. A primeira era a de que a moça conhecera Caiafa em Ouro Preto, em 1998, e o tomara por estudante. Esta hipótese, embora remota, não estaria de todo descartada. A segunda hipótese era a de que a pessoa que a remetente conhecera não seria o Caiafa, mas sim outra pessoa que se passara por ele. Também esta hipótese teria pouca chance de ser verídica. Na dúvida, o melhor a fazer era não revelar o e-mail de seu amigo.
Mas havia alguma coisa, talvez uma espécie de força oculta, naquele e-mail que não deixava Otávio tranqüilo com a sua decisão de não levar o caso adiante. Releu, mas não conseguiu inclinar-se por nenhuma das duas hipóteses. Na dúvida encaminhou-me o e-mail. Nada disse, apenas encaminhou.
Destinatário privilegiado de toda produção do Otávio, não dei muita atenção àquele e-mail a mais na minha caixa de entrada. Estava acostumado a deixar a leitura dessa fonte para quando tinha disponibilidade de tempo.
No dia 8 de julho de 2009, em um raro momento de ociosidade, passei os olhos descuidadamente, esperando estar recebendo mais um informativo do meu amigo sobre as novas atividades conectadas ao Movimento Estudantil. Fiquei mais surpreso do que o próprio Otávio. Além do fato de nunca haver estudado em Ouro Preto em 1998, jamais ouvira falar do nome da remetente. Meu julgamento compatibilizava-se com a segunda hipótese do Otávio: alguém usara o meu santo nome em vão. Melhor não tentar saber o porquê. Talvez um dia alguém revelasse sua dupla identidade. Ou não.
Mas aquele e-mail que tanto intrigara Otávio agora estava em minha frente a desafiar minha imaginação e lembrança. Seria um procedimento conspiratório de profissionais para ser tão detalhista. Ciente de minhas fraquezas e dos desatinos que já cometi, resolvi investigar a pessoa por trás daquele nome. Viajei pelo Google, Orkut, etc, até encontrar um rosto que me era familiar, ou pelo menos parecia ser. Não tinha nada a ver com 1998, mas sim com um tempo bem anterior. E a lembrança daquela pessoa que supunha ser a Fulana de Tal também me era muito agradável. Como nada havia a perder, encaminhei-lhe um e-mail que simbolizava tudo:
- Já não nos conhecemos de alguma vida passada?
Era a moça de Viçosa que estava de volta...
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De início, procuramos colocar nossas costuras em dia: falamos de nossas vidas paralelas, de nossos trajetos e de nossas famílias. Não foram necessários muitas horas para percebermos que a vida nos abria uma nova janela. O problema era que agora já tínhamos outros status, não éramos mais dois jovens adolescentes com toda a vida pela frente, éramos dois adultos com todo o passado pelas costas. Tínhamos compromissos de adultos, vidas de adultos, responsabilidades de adultos, imagens de adultos e limitações de adultos.
No ônibus para Gramado, já mais aliviados da tensão do reencontro, começamos a perceber que não havíamos mudado tanto nesses 40 anos, basta ver os nossos argumentos para justificarmos as nossas ausências. Aos meus havia dito que iria para um congresso de corretores no Rio Grande do Sul e ela informara aos seus que estaria em uma exposição de artes em Gramado. Parecíamos dois remanescentes da Guerra Fria trocando informações ultra-secretas em um filme de James Bond. Essas peraltices da terceira idade nos mostraram que, se estávamos fazendo alguma coisa de errado, iríamos errar juntos.
Já em Gramado fomos deixando de lado os nossos receios e assumindo as nossas intimidades. Nossas defesas foram se abrindo e nossas vontades foram se impondo. No final do dia descobrimos que já estávamos casados e já nos permitíamos dar início à nossa lua de mel, com 40 anos de atraso.
Mas ainda havia dois problemas a resolver. Tínhamos que fazer com que as nossas famílias entendessem e aceitassem a nossa nova situação e tínhamos que resolver o problema da distância, afinal São Borja fica a mais de oito horas de viagem de Porto Alegre, que fica a mais de mil quilômetros de São Paulo.
Em 1.969, no auge do nosso primeiro namoro, ela esteve em Belo Horizonte conhecendo meus pais e meus irmãos e eu estive em Santa Maria conhecendo sua mãe e seu irmão. Esse procedimento era tradicional, quando se tratava de um caso mais sério, a aceitação dos pais era fundamental para que o relacionamento prosperasse. Agora teríamos que fazer roteiro semelhante, só que o aval teria que vir dos filhos e dos amigos.
E deixando que os outros também se acostumassem a ela.
Fomos retomando os nossos espaços...
Começamos a colecionar lembranças do tempo vivido e também do tempo que deixamos de viver. Muita conversa para ser colocada em dia, muito ainda por se fazer. Muitas lembranças de bons momentos, muitas risadas e tristeza alguma, apesar de estarmos há tanto tempo afastados, nunca deixamos de ser amigos.
E a encurtar as diferenças que nos separavam. A vontade da vida ser vivida e retomada foi um motivador não só para nós, mas também para todos que passaram a torcer e contribuir para que tudo desse certo. Foi muito mais fácil do que em 1.969, quando ainda éramos visto como jovens, como todos os jovens como assim eram vistos.
A vida foi ficando comum no relacionamento incomum. O que um dia foi impensável tornou-se parâmetro de apresentação pessoal. Os círculos de amigos foi se fechando e se aceitando - é como aqueles 40 anos não tivessem se passado. Seria como se o tempo tivesse parado para respirar e se esquecido de voltar e de repente lembrou-se de que sua tarefa ainda não estaria cumprida. Era necessário documentar o que ficara perdido nas dobras do tempo.
No início foi um parágrafo de um livro comemorativo dos 40 anos da República Pulgatório, homenagem meramente tangencial, uma vez que o espírito do conto não era exatamente a celebração do retorno, que ainda não acontecera e que nem sequer sabíamos que um dia ele poderia acontecer. Mas a filipeta que antecedeu ao lançamento do livro tinha uma mensagem profética "por enquanto em livro, mas brevemente em uma vídeolocadora".
A videolocadora ainda não aconteceu, mas já chegamos perto:

