Houve um tempo
Os estudantes, cerca de uns duzentos na Escola de Minas e uns cem na de Farmácia, acredite, se acordados, estavam estudando para as provas do Cristiano, Valter Dornelas, Joaquim Maia, Calaes e outros monstros sagrados. Havia pouco mais de uma dúzia de repúblicas federais e em nenhuma delas havia boite.
Não havia internet, computador, telefone celular e nem calculadora HP, a tecnologia mais avançada era a régua de cálculo, a cujo aprendizado a Escola de Minas reservava todo um semestre. Sem o conhecimento de seu manejo era impossível avançar no conhecimento científico que exigisse cálculo envolvendo funções trigonométricas ou logarítmicas. E, ao contrário dos sistemas atuais, as réguas de cálculo não tinham o conceito de interface amigável – era um verdadeiro bicho de sete cabeças – as mais completas, como a Aristo e a Faber Castell com até 24 cabeças, ou escalas, se preferir.
A cidade começava nas Cabeças e terminava nas Lajes ou na igreja de Santa Ifigênia, estendendo-se até a Barra, nada de construções nas encostas dos morros. Saramenha era considerada quase como outra cidade, à qual se ia por uma rodovia tortuosa e estreita, as instalações no Morro do Cruzeiro sequer haviam sido começadas. Neste pedaço de mundo viviam cerca de vinte e cinco mil pessoas. E para se locomover em um espaço tão limitado, tortuoso e íngreme, poucos se davam ao luxo de um veículo próprio.
Por volta das onze horas da noite, no Lampião, último bar a fechar na Praça Tiradentes, seu proprietário começava a jogar água pelo chão sob o argumento de que precisava deixá-lo limpo para o café da manhã do dia seguinte. Propositadamente ia molhando os pés e as calças dos bêbados mais resistentes, dando-lhes a entender que era chegada a hora de pagarem a conta e irem dormir. No Pilão, do outro lado da Praça, se ainda havia clientes a esticarem a conversa, seus garçons iam colocando as cadeiras sobre as mesas, num indicativo claro de que o serviço começaria a ficar a desejar. Na Lanchonete Marília, junto à parada do ônibus, seu Wilson já fechava as portas, permitindo apenas a saída dos que ainda lá estavam. O CAEM, se nada havia de especial, talvez já estivesse fechado às nove horas.
Os únicos lugares que ainda ficavam abertos até mais tarde eram o Irineu, no começo da subida da Rua Direita, o Bar do Professor, no meio da Rua São José e o caldo de mocotó do Adilson no Largo da Alegria. O Irineu era um muquifo de dois metros de fundos por um de largura, limitando-se a um balcão encardido servido pelo seu dono, cujas unhas sujas e sem aparar denotavam que higiene não fazia parte de seu cardápio. Mas era o único lugar de Ouro Preto onde você poderia comer um delicioso e honesto queijo quente no pão francês à uma da manhã. O Bar do Professor, que adotou este nome porque seu proprietário dizia-se professor de batidas, ficava aberto até que seu último freguês pedisse a saideira. Invariavelmente esta era a senha para o Zé Otaviano ir embora. O Adilson era uma espécie de pronto socorro dos que exageraram na cachaça: seu caldo de mocotó servido em generosas doses levantava até defunto.
Afora estes três locais, Ouro Preto dormia. Na Praça Tiradentes nem um carro, nem um turista, nem um morador de rua. Soberba, com sua iluminação nostálgica, do alto lançava sombras sobre o restante da cidade. Olhando a partir da Praça, a Rua Direita era um deserto, nenhum automóvel, nenhuma pessoa, apenas uma pálida fresta de luz denotava que o Irineu ainda esperava por algum noctívago que dele se lembrasse. Olhando-se para o lado oposto estava a Rua do Ouvidor, também deserta, a dormir. O largo em frente à igreja do Chico de Baixo, que ainda não conhecia a ferinha de artigos de pedra sabão, ficava vazio e silencioso, apenas um viralata se atrevia a cruzar local tão ermo. Ao longe uma luz difusa na neblina indicava a Igreja de Santa Ifigênia.
E, era nesses instantes em que a Ouro Preto conhecida de todos dormia, que outra Ouro Preto, menos conhecida, acordava. Era uma mistura de passado, presente e futuro; uma mistura de real e irreal, uma mistura de realidade e sonho – era como se abrisse uma janela no tempo e no espaço, permitindo a existência de uma Ouro Preto quase paralela, onde quase tudo era possível. Este paralelismo existia por obra do acaso e da própria história e essas realidades quase paralelas se tocavam e até se confundiam.
O ritual começava quando Tiradentes, com seu jeito Macunaíma de ser, descia de seu pedestal e ia até o chafariz que se encontra em frente ao Museu para fazer a sua higiene diária. Escovava os dentes lavava o rosto, penteava os cabelos e a barba e saía para uma inspeção rotineira pela Praça, da qual se julgava zelador. Enquanto caminhava vagarosamente, ía cantarolando uma canção que compôs ao longo dos anos para acalentar a sua sina:
e ninguém tem dó,
é preciso ter um saco
de filó,
pessoal lá embaixo passa
com a garrafa de cachaça
e eu aqui fico sem poder me embebedar
mas assim não vou ficar!”
Naquele dia, a primeira a chegar foi a Força, ou Fortaleza como a chamam alguns, com a sua senha característica:
- Salutem pluribus!
A fortaleza é a virtude que permite ao homem perseverar no bem. É pela fortaleza que se consegue resistir às tentações nos momentos difíceis. Esta virtude dá força e firmeza para se superar os obstáculos na vida moral. A fortaleza é a virtude dos profetas, dos mártires e dos apóstolos.
Depois foi a vez da Temperança:
- Et columbatum est!
A temperança é o saber equilibrar os desejos próprios. Consiste no domínio da vontade sobre os instintos. É a virtude que faz com que o homem não ceda aos impulsos e às paixões. Orienta para o bem os apetites sensíveis, guarda uma sã discrição e não se deixa arrastar pelas paixões do coração.
Seguindo seus princípios, passado algum tempo e nada acontecendo de anormal, chegou a Prudência:
- Donae donaevatum!
Esta virtude refere-se ao discernimento racional sobre o verdadeiro bem e os meios para atingi-lo. Não se trata de medo, timidez nem dissimulação. É a virtude que ajuda a diferenciar o que é bem do que é mal. Rejeita a precipitação e a improvisação. Chamam-lhe condutora das virtudes, porque as guia e indica a sua regra e medida.
E fazendo jus à premissa de que tarda, mas não falha, chegou a Justiça:
- Lex persegue mea!
Esta é a virtude daquele que, por sua própria vontade, deseja dar a si e ao próximo o que lhes é devido. Entre outras coisas, a justiça passa pelo respeito para com os outros. A justiça defende a dignidade humana e os direitos de cada um. Pela justiça atinge-se a harmonia nas relações interpessoais.
A todas Tiradentes respondeu com a sua contrassenha:
- Rumble, tumble, frejurebus!
Essa mania de senha e contrassenha era uma das heranças da Inconfidência que Tiradentes fazia questão de manter para evitar a presença de estranhos
Tiradentes, na condição de anfitrião, puxou o assunto:
- A vida é de uma ironia sem par, vocês brotaram de um livro da Platão, A República, onde ele traz o discurso da educação. Eu tentei trazer a República para este país e um dos meus mais acalentados sonhos era o de fundar uma escola de nível superior. Ao final de tudo viemos todos morar nesta cidade de Repúblicas, em frente a uma das mais tradicionais escolas superiores.
Sem que se dessem conta, apareceu uma garrafa de cachaça que ia passando de mão em mão, soltando as amarras internas e relaxando a musculatura de quem ficara o dia inteiro em pé, inerte, que nem uma estátua. Estavam entretidos a comentar as mudanças pelas quais Vila Rica – é este o nome pelo qual tratavam Ouro Preto – estava passando que nem se deram conta da chegada de mais uma pessoa, com seu sotaque característico.
- Verbum dimissum!
- Rumble, tumble, frejurebus!
Este foi recebido pela Força:
- Gorceix, quanto tempo, meu caro! Que oportuna é a sua presença, estávamos falando justamente sobre a educação, tema que lhe é tão familiar. O que você nos conta de novo?
- Quase nada, o tempo para nós estátuas, parece não passar. O nosso destino é o de ficarmos parados, observando os fatos sem deles poder participar. E, contrariar o destino, como vocês sabem, meus caros, é castigo na certa. Tal qual aconteceu com aquela mocinha que chegou a ser a namorada de D Pedro I, a...
- Sinhá Olympia!
- Isto mesmo, a mocinha Olympia Cotta que vimos crescer e se tornar uma das mais belas moradoras desta Vila Rica. Tão deslumbrante era que chamou a atenção do próprio imperador, que em matéria de mulher não tinha por hábito perder a viagem.
E como tudo continuava normal, a Prudência entrou na conversa:
- Foi um caso de amor fulminante, D Pedro, o todo poderoso, caiu de amores pela donzela e queria, a todo custo, fazê-la sua amante oficial. Levou-a a conhecer o Rio de Janeiro, sede do reino, fazendo-a participar de inúmeras festas em seus palácios. Para a nobreza deu a entender que ela poderia vir a ser uma futura imperatriz, ou pelo menos, dama da corte. Levou-a a passear em Petrópolis, Teresópolis e outros locais aos quais só levava as pessoas que lhe eram próximas.
Ruídos vindos dos lados da Igreja das Mercês de Cima interromperam a conversa. As estátuas, assustadas e irritadas com o visitante indesejado viram o estudante aparentemente bêbado atravessar a praça e saudá-los de forma amigável:
- E aí, gente boa!
Não percebeu que falava com estátuas. Apenas achou meio estranho a forma de se vestirem e o ar aristocrático que delas emanava. Mas, com a onda hippie que já circulava em outros locais não achou nada de anormal. Uma delas, da qual apenas chegou a perceber a cabeça, lhe parecia familiar. Já havia visto aquela figura de óculos em outro lugar. Só não se lembrava onde. Mas como não responderam à sua saudação, resolveu continuar o seu caminho. Sabe-se lá o que fazem esses bebuns exóticos em plena Praça Tiradentes a esta hora da madrugada, com todo este frio. E saiu cantarolando pela Rua do Ouvidor abaixo:
Ê vida marvada,
Num dianta fazê nada
Prá que tanto estudá
No fim do ano ninguém vai passá...
- infelizmente, D Pedro teve que partir para Portugal e o romance passou a ser apenas mais uma página virada da história. De tudo o que sobrou desse romance foi uma estátua da Sinhá Olympia que o próprio imperador mandara esculpir e não teve tempo sequer de vê-la terminada. Abandonada em uma fazenda no interior do estado do Rio de janeiro, a estátua revoltada com o descaso aceitou o pacto de voltar à vida: somente carregaria consigo a lembrança de sua vida passada. E hoje vive a perambular pelas ruas de Vila Rica a mendigar pela sua sobrevivência à custa de suas histórias.
A Temperança, que até então cuidara apenas da garrafa de cachaça, entendeu que era a sua deixa para participar da conversa:
- Sem recursos optou pela extravagância no trajar: um vestido roto de estampas coloridas puído pelo uso, um chapéu de palha adornado por organza barata e flores murchas, sapatilhas de solado de corda e lona vermelha amarelada pelo tempo, uma echarpe imitação barata de pele animal e um cajado com fitas multicoloridas penduradas. É uma visão quase bíblica...
E, cada qual a seu tempo, foi fazendo suas considerações a respeito da Olympia que viam passar todos os dias pela Praça, com as observações de Gorceix, que pouco a via mas sempre dela ouvia falar. Tiradentes, provavelmente, era o que a via a uma distância menor:
- Olhos miúdos encravados em uma face sulcada pelo tempo. Sobrancelhas acertadas a lápis preto e boca desenhada com batom de vermelho intenso não conseguem esconder a penugem escura que se assenta sobre lábios que se mexem nervosamente como se estivessem a mastigar lembranças. Andar lento, num arrastar de pés, ajudada pelo bastão que lhe serve de apoio. Em seu lento caminhar, para mais do que anda, ora para pedir um cigarro, ora para tirar uma foto junto a algum turista, ora para pedir uns trocados para a cachaça, ora para contar mais uma de suas histórias.
Gorceix, mesmo na sua condição de observador menos privilegiado, atalhou:
- cigarros e trocados obtidos a partir de histórias que até as pedras do calçamento já conhecem. mas, embora as suas histórias sejam a pura verdade de sua vida anterior, todos as ouvem por caridade em relação ao que entendem ser a sua forma de loucura. Exceto nós e mais um e outro estudante que perambulam pela madrugada, ninguém acredita nisto.
- É, sei bem como é isto, também eu, Tiradentes, fui tomado por louco, visionário e coisa e tal. Fico a imaginar como as pessoas me receberiam se eu abdicasse de meus direitos e deveres estatuários e passasse a viver nas ruas de Vila Rica, com este cabelão, esta barba, esta vestimenta, uma corda no pescoço e contando histórias da Inconfidência.
Novos ruídos vindos agora dos lados da Igreja do Carmo novamente interromperam a conversa. Os ruídos continuaram anonimamente por um tempo até que a figura de Olympia fosse se mostrando, lentamente, na praça. Seu andar arrastado e o forte odor de tabaco e álcool foram invadindo o espaço que até então era somente das estátuas. Desta vez não houve susto ou irritação, apenas regozijo, afinal ela já fizera parte de seu mundo. E, ademais, quem iria acreditar em Sinhá Olympia se ela falasse que de madrugada conversava com estátuas?
Tiradentes, que lhe era o confidente mais próximo, já se adiantou para recebê-la:
Tiradentes, que lhe era o confidente mais próximo, já se adiantou para recebê-la:
- Minha linda, estávamos ansiosos aguardando pela sua presença.
- O dia hoje foi complicado, tive que ficar horas bancando a modelo para um tal de Zé Nelson, aquele que só faz gravuras de santos e anjos barrocos.
- É, mas você está ficando importante, cada dia que passa é uma nova homenagem que recebe. Agora é até tema de escola de samba...
- Não tanto como você, não tanto. Serei homenageada pela Mangueira, é verdade, mas você já foi a figura principal de diversos enredos...
- Mas fiquei sabendo que estão até a preparar-lhe uma homenagem maior: vai ser nome de escola de samba aqui na nossa Vila Rica.
- Também é verdade, mas tanto em um caso como no outro sou apresentada como uma excentricidade, algo exótico, uma louca reverenciada, o que não é o seu caso, que na falta de escola de samba virou até nome de cidade, praça, rua, etc. E tem até dia especial para lembrá-lo. Você desperta nas pessoas orgulho, valentia, desassombro, eu sou motivo de riso, galhofa e curiosidade. Você e as demais amigas do museu são apresentados como exemplos a serem seguidos e eu a ser evitado. Esta condição não me causa prazer algum.
- É, mas em compensação nunca tive a oportunidade de ser visitado pessoalmente por tantas personalidades de importância como Vinicius de Moraes, Juscelino Kubitscheck. No máximo recebi a visita da Guarda Real Portuguesa para me prender e o padre para me dar a extrema unção.
- Ou como já dizia Platão, o inventor dessas moças aí, o homem é a medida de todas as coisas, tanto das coisas que são o que são como das coisas que não são o que não são.
Vendo que os primeiros clarões da madrugada já começavam a cortar o negrume da paisagem, a Prudência deu o alarme:
- Gente, tá na hora. É cada qual para o seu canto. Amanhã a gente volta para continuar este papo.
- Podem ter certeza, amanhã, quando a Olympia, no meio de suas histórias, enfiar esta conversa que teve com o Tiradentes, já estarão a interpretar como se fosse um novo caso de amor a habitar o imaginário de seu almanaque.
E, após um “Factus est”, a usual saudação de despedida, cada qual foi para seu canto deixando Olympia sozinha no meio da praça. Em suas mãos apenas a garrafa de pinga que lhe deixaram por cortesia e uns três ou quatro Gauloises que filara de Gorceix.
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- Fulano de Tal, também conhecido como Isto e Aquilo. Blá, blá, blá... e, entre outras coisas ainda foi político, multiplicando seu patrimônio pessoal à custa da pobreza de muitos. Sinceramente... Elevador à esquerda, último subsolo! Próóóóximo...
Naquele dia a praça ficou mais triste e as estátuas reuniram-se em silêncio total. Vila Rica ficara mais triste, o mundo ficara mais triste, mas apenas as estátuas com aquela mania de fitar eternamente o horizonte perceberam o surgimento de uma nova estrela no firmamento.
